Existe, no seu órgão, uma planilha que ninguém do departamento de tecnologia sabe que existe — e da qual um processo inteiro já depende.
Ela começou pequena: uma servidora resolveu automatizar um controle que fazia à mão, montou umas macros, ganhou meia hora por dia. Deu certo. Aí a colega do lado pediu uma cópia. Depois o setor inteiro passou a usar. Hoje, sem aquela planilha, uma etapa do trabalho simplesmente para — e ela roda numa conta pessoal, num computador só, com uma lógica que mora na cabeça de uma pessoa que, uma hora, vai sair de lá.
Troque a planilha pelo que quiser. Uma ferramenta paga do próprio bolso porque a contratação oficial levaria dois anos. Uma automação amarrada num serviço na nuvem que a instituição nunca homologou. Um fluxo de documentos passando por uma conta pessoal de e-mail. Dados institucionais colados dentro de uma ferramenta gratuita da internet para "só resumir rapidinho". Se você trabalha no setor público, não está imaginando esses exemplos — está lembrando deles.
Isso já roda no seu órgão. Hoje. E eu quero conversar honestamente sobre o que é.
O nome que o mercado deu
O fenômeno tem nome técnico. Chama-se Shadow IT — tecnologia da informação que opera na sombra, fora do radar e do controle da área responsável. Na sua versão mais recente e mais delicada, ganhou uma sigla nova: Shadow AI, quando o que roda na sombra é inteligência artificial — um modelo processando dado sensível, uma ferramenta gerando decisão, texto institucional saindo por uma caixa-preta que ninguém aprovou.
O nome é útil para descrever, mas é ruim para entender. "Sombra" acerta o sintoma — a invisibilidade — e erra a causa. Sugere algo furtivo, mal-intencionado, feito para esconder. E quase nunca é isso.
Por que eu chamo de desobediência criativa
Prefiro outro nome, que descreve melhor a natureza do que está acontecendo: desobediência criativa. As duas palavras importam.
É desobediência porque, de fato, contorna o canal formal. A servidora da planilha não abriu um chamado, não esperou na fila, não pediu autorização. Passou por fora. Nesse sentido estrito, ela desobedeceu.
Mas é criativa porque não nasce de má-fé — nasce do oposto dela. Ninguém monta uma automação no fim de semana para prejudicar a instituição. Faz isso quem se importa: quem tem uma dor concreta, um canal oficial que não responde, e compromisso demais com o próprio trabalho para simplesmente deixar o problema sem solução. A desobediência criativa é o que acontece quando o desejo de entregar bem esbarra num gargalo e decide contorná-lo. O servidor que faz por fora não está sabotando a instituição. Está tentando entregá-la melhor, pelo único caminho que encontrou aberto.
Reconhecer isso muda quem é o personagem da história. Não é um infrator. É, quase sempre, um dos seus melhores servidores — o que se importava o bastante para tentar.
Nem crime, nem romance
Aqui preciso ser rigoroso, porque é fácil escorregar para um dos dois erros opostos.
O primeiro erro é tratar isso como crime. Chamar de crime erra o alvo: pune a intenção certa pelo caminho errado, e ensina a todo mundo que iniciativa é risco. Já vi o resultado disso — organizações onde ninguém mais tenta nada, porque tentar virou sinônimo de se expor.
O segundo erro, porém, seria romantizar. E é aqui que eu, como alguém que trabalha com proteção de dados, não posso me dar ao luxo de ser condescendente. A desobediência criativa na sombra é um problema real e grave — não apesar da boa intenção de quem a pratica, mas independentemente dela. Repare no que falta naquela planilha:
Ela opera sem controle de risco — ninguém avaliou o que acontece se ela falhar. Sem segurança da informação — está numa conta pessoal, sem backup, sem cópia, sem sigilo garantido. Sem base legal para os dados pessoais que trata — e trata, quase sempre. Sem continuidade — quando a servidora que a criou sair, a lógica vai embora com ela. E, o mais perturbador de tudo: sem que a organização sequer saiba que depende dela.
Some tudo. O risco existe, é institucional — é do órgão, não da servidora — e um dia alguém vai responder por ele. Provavelmente essa pessoa nunca terá tido a chance de governá-lo, porque nunca soube que ele estava ali. Essa é a verdadeira periculosidade da sombra: não é o que ela faz de errado; é o que ninguém pode corrigir, porque ninguém enxerga.
A escolha que já foi feita por omissão
Diante disso, a reação institucional mais comum é apertar o controle: bloquear, proibir por circular, ameaçar por corregedoria. Adianto que essa resposta piora as coisas em vez de resolver — mas por que ela piora é uma conversa que merece um artigo só para ela, e eu vou tê-la em breve. Por ora, guarde apenas a intuição de que proibir a sombra não é o mesmo que apagá-la.
O que quero fixar aqui é anterior a isso, e é mais simples do que parece.
A escolha institucional nunca foi entre ter ou não ter desobediência criativa. Ela já existe. Ela está rodando enquanto você lê. A pergunta real — a única que a instituição de fato tem diante de si — é outra:
deixá-la na sombra, ou dar a ela um canal?
Deixar na sombra é uma escolha, mesmo quando feita por omissão. É optar pelo risco invisível, sem dono e sem governo, em nome de um controle nominal que a realidade contorna todo dia. Dar um canal é a outra opção: trazer para a luz o que já existe, colocar critério, segurança e responsabilidade onde hoje só há improviso — sem matar a iniciativa que produziu aquilo em primeiro lugar.
Existe um canal sendo construído
Não vou, aqui, descrever como esse canal funciona — este texto tem uma tarefa só, que é dar nome ao fenômeno e devolver a escolha para o lugar certo. Mas quero deixar claro que o canal não é hipótese: é o que estou construindo, em aberto, para qualquer órgão pegar, adaptar e usar.
Ele nasce de uma convicção simples: seus melhores servidores vão continuar tentando resolver as dores que vivem. A pergunta é se você vai deixá-los fazer isso sozinhos, na sombra, ou se vai dar a eles um caminho iluminado. O primeiro documento desse caminho é o manifesto.
Leia, adapte, discorde por escrito. A desobediência criativa não vai parar. A única decisão que está de fato na sua mão é onde ela vai acontecer.