Eu já vi um bom projeto de tecnologia morrer três vezes. Não de uma vez — três, em câmera lenta, ao longo de três trocas de gestão. E o mais perturbador é que, em nenhuma das três, alguém fez algo errado.
Ele nasceu bem. Tinha apoio da alta administração, comitê, cronograma, orçamento — do jeito que se ensina que um projeto público deve nascer. Atravessou a primeira troca de gestão ferido, mas vivo: a nova direção "reavaliou prioridades", cortou um pedaço, empurrou um prazo. Nada fatal. Na segunda troca, o padrinho original já não estava mais na casa, e o projeto virou aquela linha de planilha que ninguém defende com convicção na reunião de prioridades. Na terceira, sobrou o esqueleto — uma contratação executada pela metade, um sistema que atendia a um processo que já tinha mudado, e uma equipe que, a essa altura, já tinha aprendido a não se apegar.
Escrevo como servidor público que viu isso por dentro. E como alguém que, cansado de assistir à mesma cena se repetir com nomes diferentes, começou a construir uma resposta. Este texto é a primeira parada dessa construção — e ela é, de propósito, só sobre o problema. Porque enquanto a gente não enxergar com precisão o que está acontecendo, qualquer solução vai ser palpite.
Uma travessia onde quase nada chega ao destino
Inovar no setor público é uma odisseia. Uso a palavra no sentido mais cru: uma travessia longa, cheia de naufrágios, em que quase nada do que embarcou chega inteiro ao outro lado. Todo servidor conhece a sensação, ainda que com outros nomes — o projeto que "não vingou", a plataforma que "ficou pela metade", o sistema que "nunca decolou".
A diferença dessa odisseia para as outras é que ninguém escolheu embarcar nela. Ela não é uma aventura que alguém decidiu correr. É uma consequência. E é aí que a conversa fica interessante — porque consequências têm causas, e causas podem ser desmontadas.
A descontinuidade não é o defeito
Vou começar tirando da mesa o suspeito mais fácil.
Órgãos públicos — sobretudo no Executivo, onde a alta administração tem forte determinação política — trocam de direção em ciclos curtos. Cada troca reordena prioridades. É tentador tratar isso como o vilão da história: a política que atrapalha, o gestor que chega e desfaz o que o anterior fez.
Mas isso é característica do regime democrático, não uma falha dele. Governos mudam porque devem mudar; prioridades se reordenam porque foram, em alguma medida, escolhidas nas urnas. Reclamar da descontinuidade política é mais ou menos como reclamar de que o mar tem ondas. Ela não vai desaparecer, e nenhum projeto sério pode ser construído na esperança de que ela desapareça.
Então, se a descontinuidade é permanente e está fora do nosso controle, a pergunta certa não é "como impedir as ondas?". É outra, bem mais incômoda: por que insistimos em construir justamente o tipo de embarcação que esse mar afunda primeiro?
Por que morre primeiro o maior
Aqui está o ponto que demorei a enxergar com clareza.
O modelo dominante de inovação no setor público aposta tudo contra a característica que acabamos de descrever. O padrão-ouro é o grande projeto: centralizado, de ciclo longo, orçamento robusto, dependente de patrocínio contínuo da cúpula para seguir de pé. É exatamente esse desenho que uma troca de gestão interrompe com mais facilidade.
Repare na mecânica. Um projeto que precisa de três anos para entregar valor precisa sobreviver, inteiro, a tudo o que acontecer nesses três anos — e três anos, no setor público, atravessam trocas de comando quase por definição. Um projeto que depende do prestígio de um padrinho específico morre quando o padrinho sai. Um projeto grande o bastante para aparecer no radar político é grande o bastante para virar alvo quando esse radar muda de foco.
Quanto maior o projeto, mais coisas precisam continuar dando certo por mais tempo — e mais pontos ele oferece para uma troca de gestão atingir. Não é azar. É a consequência previsível de apostar em embarcações imensas para uma travessia que a gente sabe, de antemão, que é cheia de naufrágios. E aí seguimos surpresos com o naufrágio de projetos que foram desenhados, do primeiro dia, para serem impossíveis de salvar no meio do caminho.
É desenho, não destino
Junte as duas peças. A descontinuidade é o mar: não é culpa de ninguém, e não vai mudar. A embarcação imensa é a escolha: essa, sim, é nossa.
O que quero dizer é simples e, para mim, foi libertador: o naufrágio não é culpa do mar. É do tipo de embarcação que insistimos em mandar para a travessia. E o tipo de embarcação não é destino — é um desenho institucional. Alguém, em algum momento, decidiu que inovar no setor público seria assim. Como toda decisão de desenho, ela pode ser revista.
Essa é a virada que sustenta tudo o que venho construindo. Enquanto tratarmos os naufrágios como fatalidade — "é assim mesmo, é o serviço público" —, vamos continuar produzindo os mesmos destroços com nomes novos a cada gestão. No instante em que passamos a tratá-los como resultado de um desenho, eles deixam de ser destino e viram um problema de engenharia institucional. E problema de engenharia tem solução.
Existe outra forma de atravessar. Não vou descrevê-la aqui — este texto tem um trabalho só, que é fazer você enxergar o problema com a mesma nitidez com que eu passei a enxergá-lo. Mas quero deixar claro, antes de fechar, que ela existe, que já está escrita, e que é aberta: qualquer órgão pode pegar, adaptar e usar.
Se essa travessia te é familiar
Se você leu até aqui reconhecendo projetos seus nos destroços que descrevi, tenho duas coisas a dizer.
A primeira é que não foi incompetência sua, nem da sua equipe, nem do gestor que chegou depois. Foi desenho. E foi um desenho que ninguém, individualmente, escolheu — o que significa que ninguém precisa carregar sozinho a culpa por ele.
A segunda é que desenho se muda. É por isso que escrevo, e é por isso que estou construindo uma alternativa em aberto, para ser adaptada, criticada e reaproveitada por quem vive esse problema todo dia. O primeiro documento dela é o manifesto.
Leia, discorde, me diga onde estou errado. A travessia continua sendo difícil. Mas ela não precisa continuar sendo essa.